Artigo: Herói por um dia, invisível no resto do ano (Por Anizete Maria de Lima Rocha)
Aos mestres, com carinho!
Por Anizete Maria de Lima Rocha*
No dia do professor, faz-se necessário repensar a grandiosidade e relevância desse profissional indispensável para o mundo; suas atribuições, responsabilidades e compromissos que transcendem a simples transmissão de conhecimento, tornando-se um mediador do aprendizado, facilitador e guia no desenvolvimento integral dos alunos.

Ser professor no mundo contemporâneo tem se tornado um dos maiores desafios a serem enfrentados. Diante das profundas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais, o profissional de educação que consegue resistir e sobreviver a tamanhas demandas, pressões, falta de empatia e respeito tanto dos sistemas educacionais, quanto dos demais sujeitos envolvidos no processo educativo, pode se considerar um verdadeiro herói (sem capa e sem medalhas).
Pesquisas indicam que a saúde mental dos professores brasileiros é precária, com altos índices de estresse, ansiedade e esgotamento (burnout). Também foi constatado que os professores brasileiros gastam mais de 20% do tempo de aula para manter a ordem em sala – acima da média internacional de 16%. Somados a esses fatores, temos a falta de políticas públicas de valorização do professor, salários defasados, salas de aulas superlotadas, pouca ou nenhuma assistência aos problemas de saúde física e mental e o mínimo de reconhecimento e respeito por grande parte dos alunos e seus pais ou responsáveis. A isso se soma uma geração de pessoas egocêntricas, competitivas ao extremo, vivendo numa bolha onde se autodenominam donos da razão (síndrome do imperador), desconsiderando os valores fundamentais e necessários às relações.
Se fizermos um paralelo entre os educandos de alguns anos atrás e os da atualidade, poderemos notar diferenças gigantescas. No passado, não muito distante, os professores eram vistos pelos seus alunos como uma figura de muita importância, uma extensão de seus pais, a quem dedicavam muito respeito e consideração e eram vistos como espelhos. Hoje já não somos vistos dessa forma — a violência física escolar contra professores dentro das escolas tem aumentado consideravelmente, além dos constrangimentos que temos que passar todos os dias em sala ao ouvir palavrões, apelidos pejorativos, gestos obscenos, desrespeito, sem falar da tristeza que carregamos dentro de nós em termos, não raro, que nos automedicarmos todos os dias depois de uma aula, em decorrência do uso da mais alta potência de voz para podermos ser ouvidos em meio a uma tempestade de conversas paralelas descontextualizadas, quando não em absoluto alheias, quanto às temáticas que estamos abordando em sala.
Não há muito o que comemorar nessa data, porém torna-se imprescindível exaltar a importância do profissional mais importante de todos; nós professores merecemos sermos vistos com um olhar mais humano e digno. Estamos resistindo aos ventos contrários, ao estresse, a exaustão, as doenças psicossomáticas e, no entanto, somos invisíveis ao sistema educativo. Amanhã, os aplausos se desfazem em eco, mais uma vez seremos esquecidos.
E o herói volta ao anonimato cotidiano, aquele que enfrenta salas superlotadas, falta de recursos, salários baixos e olhares cansados, ninguém vai lembrar do herói que hoje aparentemente está sendo enaltecido e celebrado nas redes sociais, através de mensagens. E ele volta a ser apenas mais um corpo que resiste entre papéis, provas e cobranças. Volta a ensinar com a alma, mesmo quando o corpo pede pausa. Volta a sorrir, mesmo quando a voz falha. Volta a acreditar, mesmo quando o mundo parece desistir da educação.
Ser professor é também um ato de coragem, de teimosia e de esperança e principalmente de resistência. Porque amar, quando tudo empurra para o desânimo, é um gesto revolucionário. Todo professor carrega consigo a crença no esperançar de Paulo Freire.
Não queremos ser chamados de heróis, queremos ser lembrados como sujeitos reais, com limitações, que sentem, que lutam, que precisam de condições dignas para continuarmos ensinando. A todos vocês, mestres, que contribuem todos os dias para a transformação social, que lutam com amor e deixam pedacinhos de eternidade em cada coração que aprende, todos os aplausos do mundo!
Anizete Maria de Lima Rocha
Graduada em História (UESPI) e em Pedagogia (UFPI)
Pós graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional (FECR) e em Educação Global, Inteligências Humanas e Construção da Cidadania (FESNE)
Professora de História e Filosofia
Coordenadora pedagógica
Psicopedagoga





