
O Super El Niño, apontado como um dos maiores da história, pode provocar até 1,4 mil mortes relacionadas ao calor extremo no Piauí entre junho deste ano e março de 2027. A estimativa é do Climate Impact Lab, grupo de pesquisadores ligado à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, que atualizou as projeções em uma nova ferramenta de monitoramento divulgada nesta semana. Para o Brasil, o levantamento calcula cerca de 19 mil mortes no período.
O estudo indica 83% de chance de o fenômeno ser o mais forte registrado desde 1950. No mundo, a projeção é de cerca de 857 mil mortes, quase o dobro das 451 mil previstas na estimativa anterior. Desse total, 373 mil devem ocorrer nos seis meses entre outubro e março. Os números refletem não apenas a exposição às altas temperaturas, mas também as diferenças de vulnerabilidade e de capacidade de adaptação de cada região.
O impacto é maior no Sul Global, onde está o Brasil e vive boa parte da população mais pobre. Entre os países com as maiores projeções estão Nigéria, com cerca de 56 mil mortes, Índia, com cerca de 55 mil, e Indonésia, com 29 mil.
No Piauí, o levantamento aponta 350 mortes entre junho e setembro em decorrência dos efeitos do fenômeno. Para os seis meses seguintes, de outubro a março, a projeção é de mais 1 mil mortes, com os maiores impactos em novembro e dezembro, quando são estimadas 240 e 190 mortes, respectivamente.
O climatologista e diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, Werton Costa, disse ao O Dia que conhece o estudo e que o impacto deve ser analisado à luz da desigualdade social. Segundo ele, as mesmas pessoas sofrem efeitos diferentes em períodos de chuva e de calor extremo. Ele lembrou ainda que 40 °C têm efeito distinto para um europeu e para um brasileiro.
“Considerando essa realidade, nós teríamos realmente um público-alvo que sofreria desproporcionalmente o impacto”, afirmou.
Para o climatologista, a vulnerabilidade tem origem social. “O que mata é a pobreza, é a exclusão das pessoas, pessoas que estão morando em áreas vedadas, em áreas proibitivas, em áreas insalubres. Essas pessoas, lamentavelmente, precisam do braço do Estado, precisam da política pública reparativa, precisam do reassentamento. É para elas que nós devemos trabalhar, dialogar e engajar”, complementou.
Mortes pelo calor e vulnerabilidade social
Em junho deste ano, um estudo inédito obtido pelo O Dia, conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mostrou que o Piauí registrou 2,4 mil mortes atribuídas a ondas de calor entre 2000 e 2019. O impacto foi maior entre os mais vulneráveis, em especial a terceira idade. A pesquisa cruzou dados de calor extremo com internações registradas pelo SUS ao longo de 20 anos.
A pesquisadora Beatriz Oliveira afirmou, que o efeito é mais concentrado entre idosos no Piauí do que no restante do país, o que torna o estado um caso crítico. No recorte analisado, quase 90% das causas de morte no estado estavam nessa faixa etária. “Isso foi superior ao que é encontrado no país, que é de 80%. Ou seja, é um grupo extremamente prioritário nesse estado”, declarou ao O Dia.
A pesquisa também concluiu que a letalidade do calor no Piauí e no Nordeste não pode ser separada da realidade social da região. A falta de infraestrutura socioeconômica torna a população mais vulnerável a doenças como gastroenterites e a outros problemas de saúde pública.
Gestantes e calor extremo em Teresina
Outro estudo, publicado em 2025 a partir de um memorando de entendimento entre a Prefeitura de Teresina e o Fundo de População da ONU (UNFPA), avaliou o impacto do calor extremo em mulheres grávidas e criou uma base de dados primários sobre o tema. A pesquisa ouviu 411 mulheres em 75 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da capital.
Liderado pela arquiteta e urbanista Elisa Carvalho, o levantamento contraria a ideia de que o teresinense, por conviver historicamente com altas temperaturas, não sofre com o calor. Entre as entrevistadas, 89% disseram que o clima afeta diretamente sua saúde física, e 83,7% afirmaram que o calor prejudica o bem-estar.

O dado mais crítico foi o hiato entre o sofrimento das pacientes e a orientação clínica, 91% nunca conversaram com um profissional de saúde sobre o impacto do calor na gravidez, e 84% relataram não ter acesso adequado a informações sobre como lidar com ele durante a gestação. Além disso, 82% sentiram piora no cansaço ou na fadiga, e 50% relataram dificuldade para respirar. Também foram citadas dores de cabeça, inchaço e maior agitação do bebê em dias mais quentes.
Apesar das metodologias distintas, os estudos convergem ao mostrar que a vulnerabilidade social e urbana agrava os efeitos do calor na saúde. Entre as gestantes de Teresina, 60% disseram se deslocar a pé para as consultas de pré-natal, e 69% afirmaram não ter residência adaptada ao calor extremo.
A partir do estudo, foi desenvolvido um protótipo de cartão de pré-natal baseado em ciências comportamentais, que inclui o calor extremo como ponto de registro e diálogo obrigatório nas consultas, com o objetivo de adaptar o sistema de saúde à realidade climática de Teresina.
Fonte: Portal O Dia





