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Crônica: Juazeiro, velho amigo! (Por Francisco de Assis Sousa)

A sombra do juazeiro se impõe no descampado.
A sombra do juazeiro se impõe no descampado – FOTO: PROF. FRANCISCO DE ASSIS SOUSA

Por Francisco de Assis Sousa

“Quanto mais somos da nossa aldeia,
mais somos do mundo,
porque temos identidade a mostrar.
O mundo quer cores.
Quem não tem cor para mostrar, não pode influir
no grande caleidoscópio que é o mundo.”
(Salgado Maranhão)

A caatinga é a vegetação-mãe que guarda os filhos do semiárido. E o que a torna mais evidente e característica não é a predominância do verde, como é o caso da Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e das florestas sulistas do Brasil, mas do cinza manifestado nos corpos nus, nos braços esticados das aroeiras, angicos, baraúnas, marmeleiros; do amarelado das folhas secas que se estendem pelo solo onde pisam as miúças a mastigá-las cobertas de sol.  E, como disse Luiz Gonzaga no seu Xote Ecológico, “o verde onde é que está?”

O verde do juazeiro que a vista alcança de longe – FOTO: PROF. FRANCISCO DE ASSIS SOUSA
A bandeira que desfralda no semiárido – FOTO: PROF. FRANCISCO DE ASSIS SOUSA

O verde, no período mais agudo da estiagem, aparece na copa do juazeiro como elemento da teimosia, do protesto, da persistência e, finalmente, da resistência. O juazeiro é o mais célebre representante do verde na estação de sol a pino e de céu azul no semiárido. Em pleno setembro, ele se prepara para trocar de roupa. É neste mês do ano que as folhas velhas disparam a se soltar e passam a ceder lugar para as novinhas que nascem minusculamente, como crianças em formação.

É também nesta época que bois, vacas, miúças, cavalos, jumentos e burros necessitam mais de proteção por conta da alta temperatura, e a sombra do juazeiro funciona como   berço de descanso para estes animais. Era também na sombra do juazeiro que os retirantes nordestinos que fugiam da seca fincavam arrancho a fim de refazerem as energias para seguirem aquelas longas e doloridas viagens, de extensas léguas, à procura de chuva, como documentou Raquel de Queiroz, em O quinze, e Graciliano Ramos, em Vidas Secas. E foi por conta deste flagelo que eu, quando menino, na labuta de trazer o gado para o curral no final das tardes, passei por intermináveis abalos que até hoje sinto os cabelos do corpo arrepiar.

Juazeiro de folhas novas no alto, e de folhas velhas ao fundo – FOTO: PROF. FRANCISCO DE ASSIS SOUSA

Saía de casa por volta das 15h e quase sempre encontrava um tio ou outro parente pela estrada que de pronto me indagava: “Vai pra onde?” Quando ele ouvia a resposta, disparava: “Pois cuidado! Os retirantes estão debaixo do juazeiro, aquele bem pertinho do riacho do Caniço e costumam pegar menino, colocar num saco e carregar, para mais tarde, quando sentirem fome, comerem.” Ao ouvir esta sentença, o corpo esfriava da ponta do cabelo ao solado dos pés, e o medo me conduzia até a passagem pelo dito juazeiro, quando nada que os homens me diziam se configurava. Por muito, às vezes, apenas um animal se protegia do sol quente.

Paisagem típica do mês de setembro no semiárido. – FOTO: PROF. FRANCISCO DE ASSIS SOUSA
Paisagem típica do mês de setembro no semiárido.

“Juazeiro, juazeiro, me aresponda, por favor! Juazeiro, velho amigo, onde anda o meu amor? Ai, juazeiro! Ela nunca mais voltou. Diz juazeiro! Onde anda o meu amor? Juazeiro, não te alembra, quando o nosso amor nasceu? Toda tarde a tua sombra conversava ela e eu (…)” Quem não conhece esta pegada gonzaguiana pelas rádios, pelos forrós, pelos bailes da vida? O juazeiro minimiza o calor do sol, é acolhedor e estampa a cor da esperança nos baixões de dentro que a vista alcança de longe. O verde que é flâmula onde os ventos tagarelam e marcam a sua existência no balanço dos galhos que se movem para lá e para cá.

Francisco de Assis Sousa é professor e cronista.

Fonte: Blog do Professor de Assis/TV Verdes Campos Sat

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