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Extinção de abelhas ameaça o Piauí

Extinção de abelhas ameaça o Piauí

Após o primeiro caso de terrorismo biológico no Piauí, quando 28 colméias foram executadas com veneno para pulverizar cajueiro, em fevereiro deste ano no município de Monsenhor Hipólito, a população acendeu o alerta da vulnerabilidade destes insetos a agrotóxicos utilizados nas plantações.

O Piauí corre risco de perder não só a fonte de um dos principais itens de exportação do estado (o mel), mas, principalmente, o equilíbrio da biodiversidade. Isso porque as abelhas são imprescindíveis para a polinização de plantas que são a base das cadeias alimentares, inclusive a que pertence os seres humanos. O uso de agrotóxicos é um dos motivos para a dizimação desses animais. Até que ponto a sede por dinheiro levará produtores a matar as populações deste artrópode fundamental para a vida do planeta? Até quando os seres humanos vão continuar se envenenando?

Crédito: Raíssa Morais

O alerta é de Fábia de Mello Pereira, agrônoma da Embrapa Meio Norte com doutorado em Zootecnia na área de alimentação de abelhas.

“É muito mais preocupante do que a maioria das pessoas entende, pois quando falamos em abelhas, todos pensam só no mel. Mas elas são responsáveis por 70% da polinização dos nossos alimentos. Ou seja, se elas desaparecerem, 70% do que a gente consome vai desaparecer do nosso prato. Esse é o principal impacto”, explica a pesquisadora.

Mas ela chama atenção que este não é o único efeito. “As abelhas são responsáveis pela manutenção do meio ambiente, pois 30% a 90% das plantas nativas dependem das abelhas para serem polinizadas. A extinção delas vai levando a uma extinção em cadeia”, acrescenta.

As abelhas se alimentam do néctar, por isso produzem o mel, além do pólen, que é o alimento protéico destes insetos. No entanto, as monoculturas têm dificultado uma alimentação saudável para estes animais. “Elas precisam visitar várias flores para balancear naturalmente a alimentação. As grandes plantações de determinada espécie impedem esta variação. Lá nos Estados Unidos eles trabalham muito a questão da laranja, maçã e frutas vermelhas, onde eles exploram as abelhas para a polinização. Além disso tem a questão do transporte, o estresse. Eles transportam as colmeias durante todo o ano, percorrendo o país inteiro de cultura para cultura”, aponta Fábia de Mello, doutora em zootecnia.

No entanto, a chave para a morte das abelhas é mesmo o envenenamento das produções. “Entrou também a questão dos agrotóxicos. Principalmente os neonicotinóides, produzidos a partir da nicotina. É comprovado que eles causam desorientação nos insetos, de forma geral. No Brasil também temos outras problemáticas. A gente tem um desmatamento muito grande, de forma desordenada. O inchaço das cidades também contribui. Não é apenas o aumento de áreas produtivas. Teresina mesmo a gente se assombra”, compara a pesquisadora.

Pesquisadora Fábia de Mello| Crédito: Raíssa Morais

Os Estados Unidos já estão sentindo os efeitos do desaparecimento das abelhas.

“Esse problema começou a ser despertado nos Estados Unidos. Os americanos começaram a notar que havia uma perda muito grande de colônias nos apiários”, explica.

Embora a problemática tenha causas radiais, o problema termina sendo único para todo o planeta. “O problema dos americanos é diferente do nosso. O deles é um colapso das abelhas, que não se sabe direito a causa. Eles percebem que as operárias saem das colmeias, se desorientam e não conseguem mais voltar. Mas isso acontece por uma série de fatores”, aponta a agrônoma da Embrapa Meio Norte.

No Brasil, também existem “pragas” que atacam as abelhas. “Existem várias causas pesquisadas, com algumas mais provadas. Sabemos que existem ácaros que atacam as abelhas, inclusive aqui no Brasil. Eles sugam a hemolinfa, que é como se fosse o sangue das abelhas. Elas vão ficando mais fracas e isso transmite vírus. Essas abelhas com esse problema tinham muito ácaro, vírus e problema de desnutrição. A desnutrição vem das monoculturas americanas”, avalia Fábia de Mello.

Crédito: Raíssa Morais

Fator climático fragiliza espécie

O calor do Estado e as condições climáticas também são fatores que fragilizam a espécie no Piauí. Tanto que estão sumindo, também, as abelhas selvagens. “No Nordeste, temos também a seca. Estamos saindo de uma temporada de seca prolongada que dificultava acharmos enxames de abelhas nativas. Mas não são apenas as abelhas. São as vespas, as borboletas. No caso das abelhas sem ferrão, as abelhas nativas, elas são responsáveis pela polinização de 30% a 90% do bioma. Na Caatinga, por exemplo, é menor. Mas na Mata Atlântica há uma dependência muito grande”, enumera Fábia de Mello.

A agrônoma afirma que as abelhas são indicativos biológicos de uma determinada condição ambiental. Por isso, a sua importância. “Muitas pessoas chegam para a gente e diz: por que vocês não criam abelhas resistentes ao veneno? É muita ignorância pensar isso. Elas são bioindicadores. Se você cria espécies resistentes, você deixa de ter uma percepção de quanto o ambiente está contaminado. Além disso, vai ter veneno no mel. Já temos pesquisas que indicam até o leite materno contaminado por agrotóxicos”, lembra.

A pesquisadora da Embrapa aponta um prognóstico negativo para a humanidade se as coisas continuarem como estão. “Se chegarmos à extinção das abelhas, vai ser uma cadeia que se quebra. As plantas vão deixar de existir. Então, os animais que dependem das plantas entram em extinção, até que chega no homem. Não vai ser algo imediato, mas vai chegar lá, não tem como. Precisamos cuidar muito”, recomenda. (L.A.)

Crédito: Raíssa Morais

Espécie de abelha “some” do Piauí por quatro anos

O colapso das abelhas já possui reflexos no Piauí. Uma espécie de abelha simplesmente sumiu no estado, sem registros em quase cinco anos de estiagem. “A uruçu-amarela, a Melipona rufiventris, passamos quatro anos sem ver enxame nativo aqui no Piauí. Voltamos a encontrar ano passado. Na estiagem perdeu-se muitos enxames. Agora que voltou a chover, eles voltaram a se reproduzir naturalmente”, explica Fábia de Mello, agrônoma da Embrapa Meio Norte.

No entanto, este não é um fator para se comemorar. A espécie termina retornando fragilizada ao bioma. “É positivo que conseguimos voltar a encontrar essas espécies, mas é negativo porque perdemos uma grande carga genética. Os enxames passam a ter uma consanguinidade que aumenta a vulnerabilidade para doenças”, alerta Fábia de Mello. (L.A.)

Crédito: Raíssa Morais

Possibilidades viáveis para minimizar riscos

A pesquisadora defende a redução no uso de venenos, que chegou ao extremo em países europeus. “Os agrotóxicos são danosos para todos nós, não somente as abelhas. É preciso substituir o veneno pelo uso de produtos naturais e o controle biológico. O Brasil, com a bancada do veneno, vem na contramão do que a Europa está fazendo. No caso dos europeus, eles sofreram até o limite e tiveram que tomar uma atitude. Aqui, as pessoas precisam se conscientizar que não precisamos atingir esse limite para acordar e começar a restringir”, compara.

Ela também aponta a necessidade de investimento em pesquisas para controle biológico. “Até porque se proibissem hoje o uso de agrotóxicos, não teríamos condições de manter a produção apenas com controle biológico. A Embrapa tem pesquisas, as universidades têm pesquisas e, às vezes, até sabemos de uma determinada técnica de controle biológico mas ela não existe no mercado. Um exemplo clássico é o uso de joaninhas. Todo mundo sabe que é bom para pulgão e cochonilha. Mas não tem para vender”, disse Fábia de Mello.

As condições climáticas também devem ser uma preocupação. “Antigamente a gente pensava que aquecimento global é uma coisa do futuro, mas agora vemos que é algo de agora. Basta ver o que tem acontecido na Praia do Coqueiro, no litoral. As tempestades no Rio e São Paulo. Tudo isso tem relação. No entanto, já começamos a ter problemas com agrotóxico no Piauí, com registros de morte de abelhas por conta disso”, acrescenta. (L.A.)

Fonte: Meio Norte

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