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Crônica: Mata verde e sol a pino (Por Francisco de Assis Sousa)

Os reservatórios de menor porte, há tempos, estão vazios; os de maior, amortecidos, seguem o curso da estiagem e vão se despedindo em passos largos.

Por Francisco de Assis Sousa

Foto: Daniel Rocha

Bastou uma chuva para as folhas verdes darem o ar da graça. Estavam escondidas desde o mês de maio, quando as últimas se soltaram de tão amarelas. As da aroeira são as mais atrevidas, as mais viçosas, escuras em clorofila. No solo, a vegetação rasteira aponta a cabeça em raminhas babugentas, e, como se estivesse a observar o ambiente, alastra-se em folhas miúdas campo adentro. Movidas por esse movimento, as cortinas se abrem, o sol se mostra e uma dúvida se instala na mente do caboclo. “Será se vai ter inverno?”

Com as primeiras águas, o juazeiro também se apresenta. Com mais vigor, chega à festa de pele renovada, em verde claro de tão jovem. As ovelhas ocupam a sombra organizada em copa, é tempo de descanso, ninguém aguenta a quentura do início da tarde. Antes falávamos do calor do meio-dia, agora, já se faz rotina à alta temperatura vespertina. “O sol só esfria quando se põe!”

Será se a chuva foi embora? Depois da água, estende-se a tarde quente, de noites abafadas em suor escorregadio, de ventiladores a trabalhar. A sede faz a terra engolir, com voracidade, as rasas poças que se acumularam com as primeiras águas. O calor, que é bem-vindo nos ambientes praianos, judia da vida sertaneja que pede, com clemência, para a chuva voltar.

Já são muitos anos de seca. Os reservatórios de menor porte, há tempos, estão vazios; os de maior, amortecidos, seguem o curso da estiagem e vão se despedindo em passos largos. “Não é possível que este ano não caia água para encher as barragens! Se isso não acontecer, não sei o que vai ser de nós!”. A principal preocupação do sertanejo não reside mais na plantação, na colheita de milho e feijão, na pastagem para os animais, mas no acúmulo de água nos reservatórios. É a própria sobrevivência humana que está em jogo.

Foto: Daniel Rocha

A necessidade de água faz o habitante do semiárido olhar incansavelmente para o céu, para ver como estão nuvens, se estão carregadas. Mas só o infinito azul se escancara até onde a vista alcança. A cada fim de tarde, renova-se a espera de que a noite traga o alento tão necessário para a progressão da vida. Atento ao movimento dos astros, o homem olha o horizonte buscando a manifestação de relâmpagos no nascente, se há vento soprando de baixo para cima, se a lua apresenta algum sinal.

São experiências vivas que alimentam a esperança de uma madrugada com chuva, de que o dia seguinte seja sem sol, com terra alagada, pé na lama, riacho corrente, banho de rio, cisterna serena, açude em canto. A noite cai, a madrugada cresce, o dia amanhece, o sol se espalha. Os animais abocanham a babuja já murchando, a cocheira continua a ser o local de beber. O olhar fixo no céu não permite morrer. A chuva virá mais tarde!

Francisco de Assis Sousa é professor e cronista. 

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