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Da enxada ao jaleco, ele começou a trabalhar na roça aos 7 anos no interior do Piauí, estudou com apostilas em casa quando o cursinho faliu e, contra a falta de dinheiro, se formou médico e hoje atende numa Unidade Básica de Saúde de Teresina

Filho de agricultores, Luciano Carlos começou a trabalhar na roça aos 7 anos, no interior do Piauí. Estudou com apostilas em casa quando o cursinho pré-vestibular faliu e, apesar da falta de dinheiro, formou-se médico pela Uespi em 2016. A história dele virou símbolo de superação.

Foto: Reprodução

Da roça ao consultório: essa é a síntese da trajetória do médico Luciano Carlos, que aos 25 anos conquistou o diploma que parecia impossível para um menino que começou a trabalhar na lavoura aos sete. Segundo o UOL, em reportagem publicada em agosto de 2016, ele se formou em Medicina pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) depois de conciliar os estudos com o trabalho no campo desde a infância e enfrentar a falta de dinheiro para se manter na capital.

Não foi só mais uma formatura. O que separa a história de Luciano das demais é o caminho até o jaleco: uma infância de enxada, um cursinho que faliu no meio do ano e anos de estudo solitário em casa, sustentados pela solidariedade de amigos, familiares e até de uma entidade filantrópica. No fim, o menino da Caatinga Branca virou o “doutor Luciano”.

O menino que começou na roça aos 7 anos

A história começa longe dos hospitais, no meio do sertão piauiense. Luciano Carlos nasceu e cresceu no pequeno povoado rural Caatinga Branca, em Valença do Piauí, a 216 quilômetros de Teresina, onde a rotina era ditada pelo trabalho no campo.

Foi ali que ele conheceu cedo a lida pesada. Aos sete anos, começou a trabalhar na roça, primeiro só acompanhando o pai, depois assumindo tarefas cada vez maiores conforme crescia.

Ele mesmo descreve como foi essa transição. “Nessa idade eu não fazia nada que eu não podia fazer, meu pai não deixava. Era mais só para acompanhar. A partir de dez, 12 anos já fazia quase tudo”, contou o médico ao UOL.

Plantar para viver: “Não tínhamos outra opção”

O trabalho no roçado não era passatempo, mas necessidade de sobrevivência. No campo, Luciano plantava e cultivava hortaliças e legumes, ajudando a garantir o sustento da família.

A frase dele resume a realidade de muitas famílias do interior. “Não tínhamos outra opção”, disse o médico, sobre a rotina que dividia com os pais e os irmãos.

E aquele laço com a terra nunca se rompeu. Na época da reportagem, os pais e os dois irmãos de Luciano ainda viviam na roça, no mesmo povoado onde ele deu os primeiros passos rumo ao diploma.

A escola rural e o ensino médio à noite

Antes mesmo de pegar na enxada, Luciano já frequentava a sala de aula. Aos seis anos, um ano antes de ir à roça, ele começou a estudar na Unidade Escolar Ulisses Vale Veloso, na zona rural do município, onde concluiu o ensino fundamental.

O ensino médio exigiu ainda mais esforço e deslocamento. Ele cursou o colegial à noite, em uma escola pública da zona urbana, a Maria Antonieta, conciliando o estudo com as demais responsabilidades.

Foi ali que o sonho começou a tomar forma. Em 2008, Luciano concluiu o ensino médio e deu início à batalha pela sonhada vaga na faculdade de Medicina o objetivo que guiaria os anos seguintes.

As reprovações no vestibular e o cursinho que faliu

O caminho até a universidade foi tudo, menos reto. “Fiz provas de vestibulares, mas não fui aprovado”, lembrou o médico, sobre as primeiras tentativas frustradas de entrar no curso.

Ele chegou a contar com um apoio inicial do poder público. Fez um cursinho pré-vestibular por três meses, oferecido pelo governo do Estado, na tentativa de reforçar a preparação para as provas.

Mas o obstáculo mais frustrante veio depois. Em 2009, ao voltar a um curso preparatório, ele viu a instituição fechar no meio do caminho: “só ocorreu no primeiro semestre no segundo ele fechou, faliu”, contou, resumindo que quase não teve proveito do preparatório.

Estudar sozinho em casa, com apostilas e livros

Sem cursinho e sem dinheiro para bancar um, Luciano tomou a decisão que definiria sua história. Em 2009, ele resolveu se dedicar aos estudos em casa, por conta própria, transformando a própria residência em sala de aula.

A rotina de estudo era artesanal e solitária. “Estudava com apostilas e livros”, contou o médico, apostando na disciplina individual quando as opções externas falharam.

A persistência acabou recompensada no fim do ano. No final de 2009, veio a aprovação, por cota, no curso de Medicina da Uespi e não foi a única: ele também passou em um vestibular para Administração e em um concurso do Banco do Brasil.

A aprovação era só o primeiro desafio

Luciano Carlos nasceu e cresceu no pequeno povoado rural Caatinga Branca, em Valença do Piauí; aos sete anos, começou a trabalhar na roçaImagem: Reprodução Facebook/Arquivo pessoal
Luciano Carlos nasceu e cresceu no pequeno povoado rural Caatinga Branca, em Valença do Piauí; aos sete anos, começou a trabalhar na roçaImagem: Reprodução Facebook/Arquivo pessoal

Entrar na universidade estava longe de resolver o problema. Apesar de ingressar em uma faculdade gratuita, a falta de recursos para se manter em Teresina foi um obstáculo constante ao longo de todo o curso.

A solução veio de uma rede de apoio. “Durante todo o curso tive sempre o apoio de amigos, familiares e colegas de turma”, relatou o médico, sobre a solidariedade que o sustentou na capital.

As fontes de sustento eram várias e somadas. “Meu sustento era tirado da ajuda da minha família, de uma entidade filantrópica e de estágios remunerados. Além disso, recebi doações de livros e apostilas durante o curso”, detalhou Luciano.

Líder de turma e querido pelos colegas

Mais do que sobreviver à faculdade, Luciano conquistou espaço entre os colegas. Ele guarda como lembrança especial “o carinho e respeito” que sempre recebeu da turma ao longo da graduação.

O reconhecimento também veio em forma de responsabilidade. “Outro fato que me deixará lembranças é eu ter sido líder de turma durante quase toda a graduação”, contou o médico, orgulhoso do papel que exerceu.

Esses detalhes ajudam a explicar sua trajetória. A mesma persistência que o levou da roça à universidade rendeu, dentro dela, respeito e liderança sinais de que o esforço vinha acompanhado de caráter.

O diploma e a UBS de Teresina

Filho de lavradores se forma em medicina no Piauí (Foto: Alessandro Gomes/arquivo pessoal)
Filho de lavradores se forma em medicina no Piauí (Foto: Alessandro Gomes/arquivo pessoal)

A conquista finalmente se materializou em 2016. A formatura oficial de Luciano ocorreu em 10 de maio daquele ano, embora os eventos de comemoração só tenham acontecido meses depois, quando a história ganhou repercussão.

Com o diploma na mão, ele começou a exercer a profissão. Na época da reportagem, o “doutor” Luciano trabalhava em uma Unidade Básica de Saúde de Teresina e dava plantões em hospitais da capital piauiense, colocando em prática o que havia estudado.

A rotina, porém, ainda tinha marcas da vida simples de sempre. Mesmo já médico, Luciano dependia de transporte público para ir ao trabalho e nutria um plano modesto: “Tenho pretensão de comprar um carro”, disse à época.

A promessa de retribuir aos pais

Em meio à emoção de se formar, Luciano não esquecia de onde veio. Ele prometeu retribuir aos pais tudo o que recebeu ao longo da vida, assim que a situação financeira se estabilizasse.
Em meio à emoção de se formar, Luciano não esquecia de onde veio. Ele prometeu retribuir aos pais tudo o que recebeu ao longo da vida, assim que a situação financeira se estabilizasse.

Em meio à emoção de se formar, Luciano não esquecia de onde veio. Ele prometeu retribuir aos pais tudo o que recebeu ao longo da vida, assim que a situação financeira se estabilizasse.

O plano dependia dos primeiros salários. “Assim que as coisas começarem a se equilibrar o que, com fé em Deus, acontecerá em breve passarei a ajudá-los diretamente”, afirmou o médico, sem esconder a emoção ao falar da família.

É um gesto que fecha um ciclo de gratidão. Depois de anos sustentado pela ajuda de todos, Luciano queria, enfim, inverter os papéis e cuidar de quem cuidou dele quando nada era fácil.

Os planos de residência e a volta ao Piauí

Formado, Luciano já mirava o passo seguinte da carreira. Na época, ele pretendia fazer residência médica, tendo a otorrinolaringologia como primeira opção e, em outra hipótese, clínica médica com subespecialização em cardiologia.

As provas exigiriam disposição para rodar o país. “Vou tentar aqui, no Piauí; e no Ceará, em São Paulo, Minas Gerais e, provavelmente, em mais algum Estado do Nordeste”, contou o médico, sobre a busca por uma vaga de especialização.

Mas havia um destino final no horizonte. “Possivelmente volto a Valença para o exercício da profissão”, prometeu Luciano, sinalizando a intenção de levar o conhecimento de volta à região onde tudo começou.

Da enxada na Caatinga Branca ao jaleco em Teresina, a trajetória do médico Luciano Carlos mostra que, mesmo sem dinheiro e sem cursinho, a persistência e a solidariedade podem abrir portas que pareciam trancadas.

E você, conhece alguém que venceu barreiras parecidas para realizar um sonho? Acha que histórias assim deveriam ser mais contadas? Conte nos comentários e marque aquela pessoa que precisa de uma dose de inspiração para não desistir.

Fonte: Click Petróleo e Gás

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