Destaque

Crônica: Nós vamos sorrir! (Por Rômulo Rossy Leal Carvalho)

O corrimão do tobogã aguardava minhas mãos geladas. E como não ficaram as de vítimas da Ditadura Militar há tantos anos?

Por Rômilo Rossy Leal Carvalho
Fotografia icônica do filme Ainda Estou aqui, de Walter Salles

Quase decúbito, me preparava para a primeira empreitada após a chegada na excursão: encarar o tobogã gigante — atração marcante do Parque Duas Barras, no município de Sussuapara, Piauí — e logo me corroía a ansiedade que tem me amofinado nos últimos dias. À esguelha, porém, o alvitre a Machado de Assis: “A contradição também é deste mundo” se acampou, por alguns segundos, na minha mente.

Em uma das poesias do meu novo rebento, “Depressão”, comecei o texto declarando: “Ela se curva, nua,/ áspera e silenciosa./Exasperadamente./ Nos enovela no sorriso/ falacioso, na privação/ dos sentidos — os cinco;/ o sexto e os enésimos (…)”. Fruto do desequilíbrio bioquímico de dois dos mais importantes neurotransmissores cerebrais — serotonina e noradrenalina — o estado depressivo ou de Transtorno Depressivo Maior (TDM), como vulgarmente também é conhecido, não escolhe gênero, classe social, religiosa ou política; acometeu poetas, líderes libertários — a maioria deles artistas — há muitas exceções, claro — cuja sensibilidade foi profundamente abalada, mas não esfacelada; pelo contrário: produziram da dor, na dor e para a dor ter um fim (quem sabe).

Ao contrário do que eu pensava antes de me aventurar pelo tobogã — prodigiosamente envolto pela poesia de Gilberto Gil em “A Paz”, composição do imortal da ABL junto a João Donato —, a lembrança de quantos nomes no Brasil, retalhados pelos discursos eugenistas e racistas, a exemplo de Lima Barreto, tiveram de engolir sem mastigar a agrura de ser associado diretamente à loucura e, mesmo assim, conceber copiosamente, tecer textos que permanecem vivos e vívidos — referenciais para entender um país que lida tão mal com seus patrícios, especialmente aqueles cuja sanidade é comprometida pelas próprias condições de desigualdade, preconceito e ódio disseminados, de forma infame, por uma parcela ignóbil que visa um tal “progresso” que também seleciona os seus paladinos.

O corrimão do tobogã ainda aguardava minhas mãos geladas. E como não ficaram as de vítimas da Ditadura Militar há tantos anos? Como não estão as mãos de quem nunca mais conseguiu reencontrar os entes que lhes amaciavam o coração? Isso provavelmente lhes faria contrair o desequilíbrio bioquímico da serotonina e da noradrenalina, e até de outros igualmente relevantes: dopamina, ocitocina, mas esses mesmos tiveram de usar o hormônio da coragem e o neurotransmissor da resistência. Em lugar do silêncio, o sorriso. Mais recentemente, o humorista carioca, de Niterói, Paulo Gustavo (1978-2021) cravou, enfaticamente: “rir é um ato de resistência”.

O guarda percebeu minha insegurança. Sem acanhamento, descerrou: “Pode ir”. Angústias, transtornos, dores à parte, a ordem de comando é prosseguir e aspirar um pouco do ar da esperança — relaxar também faz parte do processo e é um coadjuvante da justiça. Muitos já choraram demais. Choremos de menos. Eu desci, desengonçado, pela extensão azul do tobogã, mergulhei n’água, lavei o rosto; respondi, em soslaio extemporâneo: “É, Eunice, nós vamos sorrir”. Nós vamos sorrir!

Rômulo Rossy Leal Carvalho é licenciado em História (UFPI), mestre em Antropologia Social (USP) e acadêmico da ALVAR.

Comentários

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo