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Avanços na educação serão consumidos por pandemia, e recuperação será longa, diz especialista

Foto: Agência Brasil

Como imaginar o mundo pós-pandemia para além dos estragos econômicos, no âmbito social e educacional? Segundo a professora Cláudia Costin, fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, o caminho será longo e demandará, mais do que nunca, esforço coletivo para superar os efeitos.

Em entrevista ao Metrópoles, Cláudia Costin, que é ex-ministra da Administração e da Reforma Educacional no governo Fernando Henrique Cardoso e ex-secretária de Cultura em São Paulo durante o governo Geraldo Alckmin, explica que, no caso do Brasil, o agravamento da pandemia do coronavírus aprofundou a crise educacional no país.

“Nós já tínhamos uma crise educacional e vamos colher, nos próximos anos, uma crise gravíssima decorrente e agravada pela pandemia. As pequenas melhoras que nós tivemos, infelizmente, serão consumidas pelo agravamento da Covid-19 no país e também pela gestão inadequada que o Brasil teve”, afirma Cláudia.

As pequenas melhoras as quais a professora se refere estão presentes no mais recente balanço do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Em 2019, o Brasil bateu a meta para os primeiros anos de aprendizagem (até o 5º ano) pela sétima vez seguida.

O país, no entanto, não atingiu o mínimo proposto para a avaliação dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano). O ensino médio ficou longe da meta na avaliação.

“São melhoras, mas ainda são melhoras lentas. Nós vivemos concretamente uma crise de aprendizagem. O Brasil, finalmente, tem todas as crianças no ensino fundamental I e II, mas, no ensino médio, elas não estão aprendendo como deveriam”, pontua.

Escolas fechadas e ensino híbrido

De acordo com um relatório divulgado pela Unesco na última semana, escolas de todo o mundo passaram, em média, dois terços do ano letivo fechadas em razão da pandemia. Apenas no Brasil, foram 40 semanas de fechamento.

No auge da pandemia, em abril de 2020, 190 países fecharam suas escolas. Atualmente, apenas 30 não estão com o ensino presencial.

“É uma situação de crise que a gente não pode subestimar. E os impactos sociais aos alunos são grandes”, explica Cláudia Costin.

Segundo a professora, os alunos, sobretudo os que vivem em situação de vulnerabilidade, perdem o direito de aprender e têm risco maior de abandonar a escola, como revelou um estudo lançado pela Unicef na semana passada.

A pesquisa aponta que o Brasil tem quase 1,4 milhão de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos fora da escola. Além disso, mais de 5,5 milhões de alunos nessa faixa etária não tiveram atividades escolares em 2020 em razão da pandemia.

Para a volta às aulas, explica a docente, as escolas terão de se adaptar ao ensino híbrido – uma metodologia que combina a aprendizagem presencial e a remota. Segundo a educadora, é inviável se distanciar do formato remoto no pós-pandemia e será por meio deste modelo que a reabertura dos colégios será possível.

“Na pandemia, houve um processo de aprendizado, tanto dos alunos quanto dos professores, que não pode ser desprezado, especialmente porque a tarefa daqui para frente vai ser introduzir o ensino híbrido. Sim, nós vamos voltar presencialmente para as escolas, mas essa volta deve ser feita por meio de um esquema de rodízio de alunos. Até porque não dá para voltar com 30 ou 40 alunos dentro de uma sala. Então, no modelo, os alunos ficam alguns dias em casa, aprendendo de forma remota e, depois, vão presencialmente. É um sistema de revezamento e que, eventualmente, vamos construir soluções para aqueles que enfrentam dificuldades, por exemplo”, observa.

Enem na pandemia

Durante a entrevista ao Metrópoles, a professora Cláudia Costin ainda comentou a edição mais recente do Ensino Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada em meio à pandemia. A abstenção foi de 51,5% no primeiro dia e de 55,3% no segundo dia de prova – números recordes.

No ano passado, devido à pandemia do coronavírus, a maioria dos estudantes votou, por meio de uma enquete do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), para que o Enem fosse realizado apenas em maio deste ano. Entre os 5,8 milhões de candidatos confirmados para a prova, 1.113.350 participaram da enquete – 19,3% dos inscritos confirmados. O Ministério da Educação, no entanto, alegou que a data atrasava o cronograma das universidades e optou por realizar o exame nos dias 17 e 24 de janeiro.

Vale lembrar que o exame ainda será aplicado no Amazonas, em 23 e 24 de fevereiro, em razão do alto número de casos no estado. Na mesma data, também ocorrerá a reaplicação da prova a candidatos que tiveram diagnóstico positivo de Covid-19 ou aqueles que foram prejudicados por problemas logísticos, como salas lotadas.

Para a professora Cláudia, a taxa de abstenção só pode ser interpretada de uma forma: o resultado prático do Enem durante a maior crise sanitária do século é sinônimo de maior exclusão dos vulneráveis.

“O MEC não levou em consideração que [com a realização antecipada da prova] nós estamos interrompendo um processo lento e gradual de acesso de jovens de origem mais vulnerável ao ensino superior”, ressalta.

Segundo a docente, o governo federal não pensou nas consequências da realização da prova diante de uma alta de casos e mortes e nos danos que isso traz para um cenário pandêmico.

Ela avalia que o Ministério da Educação “subestimou” a pandemia e, apesar de ter adotado protocolos sanitários já conhecidos e recomendados mundialmente, como o uso de máscara e o distanciamento, além de lotação das salas inferior a 50%, a pasta não pensou na logística do ponto de vista dos estudantes.

“O contágio não se refere apenas à situação das salas onde o Enem está sendo aplicado. Os alunos se transportam de ônibus, de metrô, outras formas para chegar aos locais de prova e todos ao mesmo tempo. E essa questão de serem todos ao mesmo tempo é o problema”, explica.

“[A edição] Não foi justa, mas não é que houve a intencionalidade de não ser justa. É que muitos mecanismos que levam à exclusão não são explícitos. Sequer são percebidos. O pior da exclusão é que ela não é, necessariamente, consciente, mas o resultado prático desse Enem foi a maior exclusão”, pontua a especialista.

Fonte: Metrópoles

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