Crônica: Nós vamos sorrir! (Por Rômulo Rossy Leal Carvalho)
O corrimão do tobogã aguardava minhas mãos geladas. E como não ficaram as de vítimas da Ditadura Militar há tantos anos?
Por Rômilo Rossy Leal Carvalho

Quase decúbito, me preparava para a primeira empreitada após a chegada na excursão: encarar o tobogã gigante — atração marcante do Parque Duas Barras, no município de Sussuapara, Piauí — e logo me corroía a ansiedade que tem me amofinado nos últimos dias. À esguelha, porém, o alvitre a Machado de Assis: “A contradição também é deste mundo” se acampou, por alguns segundos, na minha mente.
Em uma das poesias do meu novo rebento, “Depressão”, comecei o texto declarando: “Ela se curva, nua,/ áspera e silenciosa./Exasperadamente./ Nos enovela no sorriso/ falacioso, na privação/ dos sentidos — os cinco;/ o sexto e os enésimos (…)”. Fruto do desequilíbrio bioquímico de dois dos mais importantes neurotransmissores cerebrais — serotonina e noradrenalina — o estado depressivo ou de Transtorno Depressivo Maior (TDM), como vulgarmente também é conhecido, não escolhe gênero, classe social, religiosa ou política; acometeu poetas, líderes libertários — a maioria deles artistas — há muitas exceções, claro — cuja sensibilidade foi profundamente abalada, mas não esfacelada; pelo contrário: produziram da dor, na dor e para a dor ter um fim (quem sabe).
Ao contrário do que eu pensava antes de me aventurar pelo tobogã — prodigiosamente envolto pela poesia de Gilberto Gil em “A Paz”, composição do imortal da ABL junto a João Donato —, a lembrança de quantos nomes no Brasil, retalhados pelos discursos eugenistas e racistas, a exemplo de Lima Barreto, tiveram de engolir sem mastigar a agrura de ser associado diretamente à loucura e, mesmo assim, conceber copiosamente, tecer textos que permanecem vivos e vívidos — referenciais para entender um país que lida tão mal com seus patrícios, especialmente aqueles cuja sanidade é comprometida pelas próprias condições de desigualdade, preconceito e ódio disseminados, de forma infame, por uma parcela ignóbil que visa um tal “progresso” que também seleciona os seus paladinos.
O corrimão do tobogã ainda aguardava minhas mãos geladas. E como não ficaram as de vítimas da Ditadura Militar há tantos anos? Como não estão as mãos de quem nunca mais conseguiu reencontrar os entes que lhes amaciavam o coração? Isso provavelmente lhes faria contrair o desequilíbrio bioquímico da serotonina e da noradrenalina, e até de outros igualmente relevantes: dopamina, ocitocina, mas esses mesmos tiveram de usar o hormônio da coragem e o neurotransmissor da resistência. Em lugar do silêncio, o sorriso. Mais recentemente, o humorista carioca, de Niterói, Paulo Gustavo (1978-2021) cravou, enfaticamente: “rir é um ato de resistência”.
O guarda percebeu minha insegurança. Sem acanhamento, descerrou: “Pode ir”. Angústias, transtornos, dores à parte, a ordem de comando é prosseguir e aspirar um pouco do ar da esperança — relaxar também faz parte do processo e é um coadjuvante da justiça. Muitos já choraram demais. Choremos de menos. Eu desci, desengonçado, pela extensão azul do tobogã, mergulhei n’água, lavei o rosto; respondi, em soslaio extemporâneo: “É, Eunice, nós vamos sorrir”. Nós vamos sorrir!
Rômulo Rossy Leal Carvalho é licenciado em História (UFPI), mestre em Antropologia Social (USP) e acadêmico da ALVAR.





