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Iniciativa muda o panorama da agricultura familiar no semiárido do Piauí

Na lendária composição musical “Os Sertões (1976)”, os versos escritos por Edeon de Paula citavam “a terra é seca, mal se pode cultivar… a vida é triste nesse lugar”.  Quase 45 anos depois, no semiárido piauiense, mais especificamente na comunidade Novo Zabelê, zona rural de São Raimundo Nonato, por meio da agricultura familiar, a terra ganha vida e num contraste intrigante, as árvores cinzentas pelo pico da seca convivem em harmonia com plantações verdes e exuberantes, provando que a realidade do sertão pode sim ser modificada. E a tristeza… essa ficou no passado!

Projeto Orgânicos Zabelê – Foto: Raíssa Morais

O projeto ‘Orgânicos Zabelê’, ancorado pela Apaspi (Associação dos Produtores Produtoras Agroecológicos do Semiárido Piauiense) na comunidade, promove a inclusão social, oferecendo aos moradores a possibilidade de conquistarem a subsistência através da agricultura, mantendo parcerias com a Prefeitura, Governo Federal e participando de pregões eletrônicos, os pequenos produtores hoje conseguem a renda necessária, sem precisar deixar o seu lar, o seu torrão em busca de uma vida melhor.

A mudança positiva na realidade local é sintetizada pelo produtor Edmilton Ribeiro Nunes, que reverbera a importância do “Orgânicos Zabelê” para sua família. Ele, que antigamente trabalhava como roceiro e pedreiro, lidava com uma rotina extenuante, hoje, vive com mais tranquilidade e tem tempo para aproveitar o aconchego familiar, e acima de tudo, passou a valorizar ainda mais a natureza; a riqueza que vem do solo.

O produtor relata que até mesmo a margem de lucro melhorou com a iniciativa, seja positivo também para o consumidor. “Melhorou bastante, até o preço do produto melhorou, porque vendemos  diretamente ao consumidor, não tem mais o atravessador”, disse.

Comunidade fica em São Raimundo Nonato – Foto: Raíssa Morais

Representante do Grupo Novo Zabelê na Apaspi, Maria de Fátima Sousa, explica como o trabalho é desenvolvido na comunidade, tendo em vista que o assentamento existe desde 1997, mas a associação foi criada apenas em 2012, e desde então vem inserindo no dia a dia local um novo panorama: um panorama muito mais vívido e acalentador.

“A ideia da associação surgiu em 2010 com o propósito de produzir algodão orgânico, em 2012 a gente formalizou a associação e em 2013 recebemos o certificado, credenciamento de produtor orgânico do Ministério da Agricultura.  Nos organizamos a grupos e começamos em 2017 a comercializar para os programas institucionais, programas do Governo, através de pregão eletrônico, passamos a produzir para o Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar tanto do Instituto Federal, quanto da Prefeitura de São Raimundo Nonato”, assinalou.

As entregas dos produtos, dentre os quais estão tomate, coentro, melancia, maracujá, abóbora, ocorre às terças-feiras, todas as verduras e frutas produzidas seguem os parâmetros exigidos para a certificação dos orgânicos; esbanjando saúde e beleza.

  A felicidade que brota da agricultura

A falta de água no sertão sempre foi um empecilho para o desenvolvimento de uma série de culturas, mas com o avanço da tecnologia, principalmente com a irrigação e implantação de cisternas de produção, o semiárido prova continuamente seu potencial.

Entrega segue os parâmetros exigidos para certificação – Foto: Raíssa Morais

No projeto ‘Orgânicos Zabelê’, a comunidade foi submetida a uma nova realidade, a felicidade brotou da agricultura e hoje floresce em mais qualidade de vida, mais tranquilidade, mais tempo, mais amor.

“Estamos produzindo há cinco anos; a nossa renda toda é de lá, antes meu marido trabalhava de pedreiro ‘pros outros’, e ele sempre  dizia que quando abrir um poço e achasse água, ele ia parar de trabalhar (de  pedreiro), pois ele estava sofrendo muito com dor nas  costas; aí ele  conseguiu essa água e  agora  ele produz  para nós mesmos”, afirmou a dona de casa e produtora Josélia Ferreira Ribeiro Nunes.

Se a principal vertente de toda a iniciativa social é incluir, na Orgânicos Zabelê isto é uma realidade, confluindo para imagens e histórias emocionantes, vindas diretamente do sertão do Piauí.

“Antes da pandemia a venda tava melhor, assim como a renda, mas graças a Deus veio esse site e melhorou bastante para a gente”, comentou Josélia Ferreira.

 A tecnologia como aliada

Edmilton Ribeiro, produtor – Foto: Raíssa Morais

É hora de desmistificar o semiárido, muitas vezes vista com uma série de reticências, a região avança a olho-nu e promove mudanças significativas no bem estar social da população. Outrora esquecido, hoje conectado e no projeto da comunidade Novo Zabelê, os produtores desde 2018 comercializam as frutas e verduras por meio da internet. Em tempos de pandemia, com o fechamento de escolas, a queda na demanda foi de 80%, assim o único meio de subsistência tornou-se as vendas pela rede mundial de computadores. Mesmo sem imaginar, os agricultores da iniciativa se prepararam para o momento excepcional que estamos vivenciando.

“Em 2018 com o Núcleo de Agroecologia do Instituto Federal conseguimos criar um projeto, uma plataforma de vendas dos produtos; estamos nos aprimorando. A ideia surgiu porque vimos que tínhamos oportunidade de venda, como sabemos que no país todo vende através da internet e nossa comunidade não fica distante da cidade, percebemos que era possível”, afirmou Mária de Fátima Sousa.

De acordo com a representante da Associação, sem o auxílio da plataforma digital, as vendas estariam praticamente zeradas, por conta da pandemia, que ocasionou o fechamento das escolas, em que os produtos chegavam a maior quantidade.

“Sem o site nossas vendas estariam praticamente zeradas, íamos vender esporadicamente para uma ou outra pessoa, o site parece uma benção de Deus e veio nesse momento e claro que estamos aprimorando cada vez mais”, afirmou.

Antes da pandemia, estima-se que quase 1 tonelada era comercializada, atualmente não passa de 200 kg, porém a expectativa é que as vendas pelo site continuem  crescendo e  essa demanda volte a crescer.

O projeto “Orgânicos Zabelê – Articulação entre a agricultura familiar inclusiva e produtiva e cooperação institucional para criação de uma plataforma de vendas de produtos orgânicos”, foi lançado em maio de 2019 pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia e Núcleo de Empreendedorismo e Inovação do campus, sendo coordenado pela nutricionista Tatiane Leocádio e pelo professor Dann Luciano, respectivamente.

A iniciativa tão valorosa foi premiada ao final do ano passado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, sendo considerada uma experiência exitosa na promoção de experiências e metodologias de inovação e desenvolvimento sustentável.  Atualmente, a Apaspi engloba mais de 100 produtores em pelo menos 4 municípios da região.

Fonte: Meio Norte

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