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Você sabe o que é “passar fome”?! Quase metade do Piauí sabe!! Conheça essa triste realidade

Você já deve ter escutado alguma vez na sua vida a expressão “passar fome”. Mas você sabe o que realmente significa “passar fome”?!

Segundo levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado, quase a metade da população piauiense está em condições de pobreza.

Pela definição do IBGE, a definição de pobreza remete a privação do bem-estar da população, a partir da exclusão de uma parcela de indivíduos do acesso a políticas públicas que garantam moradia, educação, alimentação adequada e acesso a oportunidades.

No Piauí, mais de 1,3 milhões de pessoas estão incluídos nesse grupo. O Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE aponta que 41,9% da população piauiense está abaixo da linha da pobreza. Nessa parcela estão os habitantes que possuem rendimento a US$ 5,50 por dia, o que equivale a menos de R$ 420 per capita por mês. Já as pessoas em situação de extrema pobreza, com renda per capita inferior a R$ 145 mensais, ou U$S 1,9 por dia, é de 462 mil habitantes, correspondente a 14,2% da população.

Quase a metade da população piauiense está abaixo da linha da pobreza (Foto: Reprodução – Arlesson Sicsú)

CONHEÇAM A DONA DEDÊ

Com estes números na mão, a reportagem do OitoMeia foi às ruas identificar quem são alguns dos piauienses que vivem nessas condições. Conheçam a família de Edeusulita Conceição, de 66 anos de idade. Há poucos metros da calçada da casa de Dedê, como é mais conhecida, um homem havia sido baleado. Logo ela lembrou que uma dupla tentou assaltá-la pelas ruas do Parque Afono Gil, zona Sul de Teresina, onde mora. Ela lembra, aliás, que disparos foram ouvidos neste dia desde as 6h da manhã. “Ouviu os tiros?”, comentavam alguns grupos de moradores. Entre alguns varais, camisas e meias recém-lavadas, a mulher parecia acostumada com esse tipo de ambiente.

Mesmo com a suspeita de que criminosos ainda pudessem estar por ali, ela estava concentrada em terminar a tarefa, que era lavar e estender algumas roupas. Foi contando essa história e trabalhando desta forma -lavando a roupa do marido e dos filhos-, que ela recebeu a reportagem do OitoMeia. O relógio marcava 10h, e logo a próxima preocupação seria a mais difícil e que ela precisa encarar todos os dias: conseguir o almoço para ela e as outras onze pessoas que moram na residência de pouco mais de 6 m², sem um mínimo básico para conforto de todos.

Dona Dedê relata ao OitoMeia: “Faz tempo que a gente não come uma carne” (Foto: Ricardo Morais / OitoMeia)

PAGAR O GÁS E NÃO ALMOÇAR

Dona Dedê tem consciência que faz parte desta triste estatística: está entre os 45% da população do Piauí que vive em situação de extrema pobreza. “Nós estamos como Deus quer”, descreveu Dona Dedê ao ser perguntada como ela observa a situação de sua família. Desempregada, ela diz não se lembrar da última vez em que conseguiu um trabalho. “Já tentei bater de porta em porta pedindo para lavar roupa, mas pensaram que era uma bandida”, lamentou. Ao citar Deus e a consolar a si mesma sempre repetindo “poderíamos estar pior”, em algum momento da vida, a mulher parece ter dito si mesma que aquele era o seu destino. Hoje, com a ajuda da irmã, ela conseguiu um bico aos domingos: vende batatinhas embaixo de um pé de caju em um dos clubes da região, quando tem festa. Deste trabalho consegue apurar R$ 40, que usa para comprar algumas coisas para comer ao longo da semana.

“É difícil para comprar gás, já faz um tempo que não pagamos a conta de energia. Ou pagamos ou comemos. Faz muito tempo que estamos assim, acredita?!”, afirma, relatando que faz tempo que não sabe o que é comer uma carne na refeição da família. Apesar da situação, ela fala em tom humorado e questiona como se quem só pode testemunhar essa condição de vida, não pudesse acreditar no que ela diz.

Área do Parque Afonso Gil, onde mora Dona Dedê, tem os sinais de violência registrados pelas ruas (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

POBRE, DIGNA E EXEMPLAR

Mas olha como o destino prega certas coisas: mesmo estando nesta situação, como ela mesmo diz, “há tanto tempo”, Dona Dedê abriga um décimo segundo integrante ao lado de sua família, dentro de sua casa. É  um morador de rua que ela conheceu e decidiu dar abrigo. O motivo para tal ação é que ela gosta de apoiar pessoas mais simples, que estão, segundo ela, numa situaçao pior que a dela. Dona Dedê contou que sempre que pode (no caso, mesmo que não possa), atende moradores de rua. João, como ela o chama era usuário de drogas e ela conta que um outro filho dela, conhecido como Elisvan, um dia também já foi. Mesmo sem ter acesso aos números do que é estar entre as pessoas que vivem em condição de extrema pobreza, Dona Dedê enfatiza o quanto se preocupa em manter os filhos longe das ruas e das drogas, pois não quer que “eles caiam nas mãos da Polícia”. Segundo ela, as chances de voltarem para casa depois disso são mínimas. Então, resolveu fazer a diferença. Adotou o garoto que sempre rondava sua casa, em vez de escorraçá-lo para longe. E o que é interessante: João, vez por outra, consegue alguma “mistura” pelas ruas que acaba ajudando na hora das refeições da família de Dona Dedê.

“No dia em que eu não consigo comprar um arroz e um feijão, o João traz a mistura. Mas, ele nem sempre ganha e nesses dias aqui, não teve como colocar comida na mesa. Quando ele veio já tinha mais de 10 pessoas aqui, mas ele me conhecia da rua também e me chamava de mãe, então eu apoio. Eu digo a mesma coisa que digo para os meus filhos: para ele não cair na tentação se ele cair na polícia eu nunca teria condições de tirá-lo de lá”.

Dona Dedê mostra fotos da família: na pequena casa, moram ela, 11 membros da família e um morador de rua que ela decidiu abrigar (Foto: Ricardo Morais / OitoMeia)

DONA DEDÊ TEM SONHOS

Questionada pelo OitoMeia se tem algum sonho, Dona Dedê disse que sim. E não só um. Mas dois sonhos: conseguir um emprego e concluir as obras da casa onde mora. O lar da família que abriga 12 pessoas costumava ser uma casa de “taípa”. Mas, ano passado o marido e o sogro conseguiram fazer uma vaquinha e levantaram os tijolos da nova residência. Aquilo foi um sopro na autoestima de Dona Dedê. Com paredes e teto, a casa não tem portas ainda.

“A porta foi um rapaz da igreja que deu. Mas a da cozinha ainda não tem porta. Eu não acho perigoso, mas é aquela coisa… a gente dorme, mas não dorme demais, não, porque o murinho aqui é baixo e a casa do lado é abandonado. De vez em quando dá medo… se um mala entra aqui, mata todo mundo”. 

Casa de Dona dd não tem portas, e sem dinheiro, não conseguiu concluir o muro da residência (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

PRATO DO DIA: SALSICHA

Dona Dedê disse saber do quanto o Brasil tem hoje muitos desempregados e do quando a desigualdade social afeta a sua família: “Meu menino um dia desses estava fazendo uma pesquisa e viu que as filhas de um deputado tem uma lei que dá direito de receberem R$ 30 mil por mês. E aí eu me pergunto: por que o filho de um pobre não pode receber nem R$ 100?”, questiona. O OitoMeia acompanhou um pouco da rotina da família de Dona Dedê e foi até a sua cozinha. Dona Dedê mostrou que faz tempo que nem mesmo usa as panelas que tem, pois é “difícil fazer comida todo dia”. Ela recebei a reportagem do OitoMeia em uma manhã de sábado. Foi no último dia 25 de janeiro de 2020. Segundo ela, iria preparar o almoço dela e do filho mais novo, que seria  arroz com salsicha.

“A comida da gente se resumiu em um arroz com feijão, uma salsicha e as vezes até saia uma calabresa. Nem frango não temos condições de comprar. A opção é uma salsicha mesmo, que você vai no mercado, dá dois Reais e traz umas quatro para casa”. 

Em meio a quantidade de panelas que não são usadas há tempos, ela prepara a salsicha que vai almoçar (Foto: Paula Sampaio/ OitoMeia)

É POSSÍVEL VIVER COM R$ 400?!

Dona Dedê demonstrou ter tentando sair dessa condição. Segundo ela, ao 18 anos terminou o ensino médio em uma escola pública, mas não pôde ingressar no ensino superior pois teve que começar a trabalhar para ajudar a sua família. A mãe e o filho moram em uma casa simples há 20 metros de uma galeria que atravessa todo o Parque Afonso Gil. As duas casas vizinhas à dela desabaram devido o assoreamento da terra. Hoje, Maria Conceição, a Dona Dedê, tenta ganhar dinheiro também com a venda de geladinhos e como “sacoleira”. A renda mensal é de R$ 400. “Nós poderíamos passar melhor se não fosse as contas”, diz ela, exibindo a conta de luz da casa, maior que a renda deles, que gira em torno de R$ 500. Disse que a dívida da família com contas de água e luz passa dos R$ 10 mil. E olha entre o electrodomésticos que ocupam os cômodos da casa e ‘gastam’ essa energia estão apenas uma televisão, uma geladeira e um ventilador.

“As vezes compro um quilo de arroz, outro amanhã… A gente vai se virando, mas é muito difícil. Se não fosse esse talões (exibindo a conta de luz) nós passaríamos melhor… mas a gente vai acumulando as dívidas e a medida em que isso acontece a qualidade da comida vai diminuindo também. Você tem que optar: ou você paga ou come”. 

Conta de luz chega a R$ 500, sendo que a renda mensal da família é de R$ 400 (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

A VIDA REAL DE MUITOS BRASILEIROS

Apenas três vigas de concreto interligam a casa de dona Dedê. Morando perto da galeria que corta o Parque Afonso Gil, ela diz não ligar o mau cheiro e as condições que é obrigada a viver. Parece uma metáfora de péssimo gosto às condições as quais essa parte da população vive: altos índices de criminalidade, baixa escolaridade, condições insalubres e até a cor de sua pele. Mas, não é uma metáfora. É real. A esta mulher foram negados direitos básicos para vida de qualquer um, apenas pelo fato de ser pobre. O OitoMeia fez a foto abaixo para registrar que a idosa tem de se equilibrar nas vigas se quiser ir a qualquer lugar que seja.

“Eu passo naquela ponte, para lá e para cá todo dia. Tenho 66 anos e as vezes é complicado mesmo. Eu passo caminhando e não é ruim, passa até bêbado. Só que isso aqui tudo é da prefeitura. Quem tinha que resolver isso aqui era o prefeito mas ele não quer fazer e aí ninguém vai atrás”. 

Vigas de concreto servem como ponte entre galeria casa de dona Maria (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

DONA DEDÊ TEVE O BOLSA FAMÍLIA CORTADO

Em resposta sobre a reclamação de Dona Dedê, o OitoMeia ouviu a SDU Sul. Foi informado que existe uma programação de recursos para construir uma galeria para a área citada. Mas, de forma emergencial, vai mandar uma assistente social para visitar o local junto com representante da Defesa Civil para avaliar os casos mais urgentes. Você, leitor, ao final desta reportagem pode estar se perguntando se ela tem o cartão do Bolsa Família para ajudar nas contas. Pois bem, o benefício foi cortado há tempos para ela e ela não sabe explicar o porquê. O Bolsa Família que a família usava estava em nome de sua neta, mas também foi cortado.

Entra aqui a pergunta feita no começo desta reportagem: “você sabe o que realmente significa “passar fome”?! Mesmo quem nunca sentiu esse desprazer, na prática, pode ter percebido, nesta reportagem, como é a vida de uma das pessoas que faz parte da triste estatística que ilustra esta matéria. Dona Dedê faz parte dos 41,9% da população piauiense está abaixo da linha da pobreza e que precisa se virar nos 30 para sustentar a família com míseros R$ 400. “É entregar pra Deus, orar todo dia que um dia as coisas vão dar certo pelo menos pros nossos meninos, né não?!”, fecha ela, tentando passar uma última mensagem de otimismo que deveria servir não só para esta matéria, mas para o Brasil inteiro.

Dona Dedê parece viver dentro de sua própria prisão sem ter cometido qualquer crime (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

*Reportagem por Paula Sampaio com colaboração de Joelma Abreu / Oito Meia

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